Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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O meu Gato

Foto por Cláudia in Hydra

Este não é o meu gato. Aliás, tolero os gatos, sei como fazer-lhe festas, mas não são os meus animais favoritos. Primeiro vêm os cães e depois os pássaros. Estes segundos ao ar livre.

Este é um gato especial, que se apaixonou à primeira vista, e soube  cativar o objeto da sua paixão. Íamos quatro no caminho e ele escolheu-me. Tive de me sentar dada a sua insistência para que o fizesse. E sentei-me. E ele ficou ali encostado a mim o tempo que quis. Tenho a sensação, a inexperiência a isso obriga, que foi mamar. Mais não posso que especular.

Nunca me disse o nome. Se é que o tinha. E a nossa relação não foi além daqueles trinta minutos. Depois foi-se embora muito calmamente. Tinha estado a beber calma. Mas marcou-me. Lembro-me dele amiúde. Da sua calma. Da sua insistência e por fim como se foi embora. Parece que sabia que eu era um colo temporário. E isso apaixonou -me. Ficou para sempre o meu gato…

jpv


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AMOR

Essa coisa indefenível
Como as coisas
Que se chamam coisas.
Essa impressão
Que fica no ar
Mesmo quando já não se nota
O teu passar.
Essa coisa que me traz preocupado
Com as simples tarefas
Do universo.
Essa coisa que deixa um perfume
Em prosa,
Ou em verso.
Essa coisa a que não quero chamar Amor
E que rodeio com perífrases
Do mesmo tipo.
Esse longo amar
Na cabana do Tofo,
Ou um beijo trocado
No Dhow ao chegar.
Passou continentes
E olhou-te de surpresa
Após o AVC.
Essa coisa que ainda
Ontem fizemos,
Sem vergonha nem pudor.
Essa coisa,
Assim pura,
Chama-se Amor.

jpv


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FOTOBIOGRAFIA

Íamos para o campo e eu atirava uma bola tão alto quanto possível e tu ficavas ali a vê-la cair devagar…

João Paulo Videira in FOTOBIOGRAFIA


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George

Foto por Dasa.

Um ano. Um incrível ano. Sabes, estou agora a escrever sobre o teu Pai. É uma coisa que faço. Escrever. Assim como tu te entreténs com os brinquedos, eu escrevo. Hoje apetece-me dizer que é o dia mais fantástico de sempre. Porque tu fazes anos. É assim como se rebentassem todos os fogos de artifício do mundo no meu coração. A tua música, como um xá-xá-xá perfeito, inunda o meu cérebro. Quando cresceres, hás-de aprender que não sou muito normal, mas amo-te acima de todas as coisas. Tu agora és tão pequenino, que tudo te parece grande, os manos, James e Julia, parecem-te domar o mundo, que em breve será teu. Sabes, o avô não tem medo de morrer, mas tenho pena de não continuar a vida ao pé de vós. Espero ter tempo para que me conheças, para que faças, tu, os juízos de valor. Até já!

João Paulo Videira


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FOTOBIOGRAFIA

Foto por Carlos Pinto Leite

“A mais bela conversa que tive com ele, não foi uma conversa.”

FOTOBIOGRAFIA


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Nademos


A escrita não pode ser fotográfica.
E realmente a vida não tem relação nenhuma com a escrita.
Esta é o que envolve o que se vive,
um véu que paira,
que revela ou esconde,
aparentemente inútil,
nitidamente necessário.

Nademos.

E não deixemos de viver por causa da escrita.
E não deixemos de escrever por causa da vida.
Mesmo nos dias em que a escrita é a nossa única namorada.

Ne pas oublier

Gosto é de deixar o corpo dominar o espírito.

António Martinho


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Manhã

Por jpvideira. O sol.

Está um sol

Tremendo.

Está frio

Mas não muda nada.

O sol tem um efeito

Incandescente.

Trespassa até

Corações

Indecisos. Não crêem

Naquela estrela.

Com o frio que está.

E fica o coração indeciso

Entre arrepiar-se de frio

E soltar-se ao sol triunfante.

jpv


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Símbolos

Há uns tempos cheguei -me ao pé uma colega da Direção e disse, que quando houvesse tempo haveriam de pensar nos símbolos da escola e pô-los a adejar ao vento. A Bandeira Nacional e a da Escola.

Sei-lá, sentia-me mais aconchegado…

Hoje, com o brilho no olhar veio dizer-me, Já reparaste? Olha ali. E lá estava ela ao vento…

Agora só falta a da escola!

Muito obrigado!

jpv


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Reeguer Leiria


Um vento
Uma ventania
E já ninguém
Sabe o que é
Seu.
Exceto o medo.

——

Quatro painéis fotovoltaicos
Aqui, onde estavam as minhas flores.
Algumas telhas que me faltam,
Tenho sorte, foram só quatrocentas e cinco,
O vizinho, além, tem mais de duas mil e quinhentas,
Que fugiram para não sei onde.
E outro veio à procura delas,
Mas, às tantas, estão todas misturadas,
A maioria partidas.
Foi a dança das telhas,
Fugiram e foram dançar.

——

Os políticos surpreendidos
Levaram umas águas
Depois fizeram uma reunião,
E mais outra.
Afinal eram mil milhões,
Sem contar com
O que cada mão revela.
Políticos, chegam tarde,
E enganados,
E eu, aqui, sem luz.

——

Uma chaminé caiu-me
E luz
E água
E as comunicações foram.
Faz hoje oito dias.
Oito dias.
Uma semana.
Sem luz,
Sem água,
Sem comunicações.
Inventámos…
Ao sexto dia
Um rádio-transistor.
Reparamos, então,
O quão atrasados estão
Os políticos.
Os presidentes de câmara estão sós.
Os Bombeiros,
A GNR,
A PSP,
A mão de obra vadia,
Esses chegaram a tempo.
Vítimas também…
E nós aqui,
No meio do século XXI,
Nem um telefonema,
Nem um banho,
Nem uma lâmpada.

——

Oiço o rádio-transistor.
Uma melodia gasta
Traz-me memórias.

——

A minha casa?
Onde está a minha casa?
Ninguém sabia responder-lhe
Porque a resposta
Já ele sabia.
Costumava estar ali.

——

Primeiro, era um
Velhote com a
Mania que conhecia
Geradores.
Depois foram nove,
Depois deixei de contar.
Depois caíram
Dos telhados
Como se andassem
Às cerejeiras.
E morreram
Como se andassem
À fruta
Alegres
Com um traço
A alargar-lhes o desespero.
Morreram.
Não estavam à espera.

——

Uma luta de gigantes
Aconteceu aqui:
Os Hércules, os Martes,
Fizeram das nossas vidas
O seu campo de brincar.
Um poste de luz,
Que estava aqui,
Viu-se lá longe
De pernas para o ar.
O carro que estava aqui,
Agora foi preciso caminhar
Para o encontrar.
E aquela casa
Que veio para o meio
Da estrada,
E o cabo de longa tensão,
Ali pendurado,
Jaze no chão.
Como se crianças traquinas
Brincassem com eles,
Como se tivessem formas
De brincar.
Um leão, uma girafa,
E um Hércules com pouca força
E isto assim
Vezes sem conta,
Vezes mais do que eu
Pudesse contar.

——

E veio a manhã.
Só desgraça.
Só dor.
Um mar imenso
De dor.

——

Os políticos demoraram mais.
Primeiro não souberam.
Há dificuldades:
Não era isso
Que a imensidão
Que era preciso
Fazer
Exigia.

——

Era um ministério
De coisas.
Famílias desalojadas,
Pessoas afogadas,
Muitos foram os mortos
Após a tempestade.
Vítimas de geradores
A funcionar em casa
Por medo de assaltos.
Vítimas de telhados assassinos
Que cospem quem vai lá acima.
Vítimas de cabos soltos.
Vítimas.
Da boa vontade.
Do medo.
Primeira, três meses.
Segunda, seis meses.
Por fim, um ano.
Um ano.
E as árvores todas
Que falta levantar.

——

Foi esse tempo
De contar mortos.

——

Chegou o tempo
De contar os estragos.
Bem contados
E os milhões
Multiplicaram-se.
E havia gente sem luz
Sem água
Sem comunicações
Sem casa.

——

Por fim
Só muito por fim
Se ouviu a expressão
Reerguer Leiria.

——

E agora
Vivemos assim
Uns sem luz
Outros sem água
Outros sem comunicações
Outros sem casa
Outros sem ter onde trabalhar
E Mundo lá fora
Continua.
E nós também
Continuamos.
Até à próxima
Kristin.

jpv


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Leiria e nós (2)

Viver sem água, luz e telecomunicações, é uma aventura interessante. Agora estou num shopping a carregar os telefones.

Deixo-vos umas imagens do que nos rodeia.

jpv