Este não é o meu gato. Aliás, tolero os gatos, sei como fazer-lhe festas, mas não são os meus animais favoritos. Primeiro vêm os cães e depois os pássaros. Estes segundos ao ar livre.
Este é um gato especial, que se apaixonou à primeira vista, e soube cativar o objeto da sua paixão. Íamos quatro no caminho e ele escolheu-me. Tive de me sentar dada a sua insistência para que o fizesse. E sentei-me. E ele ficou ali encostado a mim o tempo que quis. Tenho a sensação, a inexperiência a isso obriga, que foi mamar. Mais não posso que especular.
Nunca me disse o nome. Se é que o tinha. E a nossa relação não foi além daqueles trinta minutos. Depois foi-se embora muito calmamente. Tinha estado a beber calma. Mas marcou-me. Lembro-me dele amiúde. Da sua calma. Da sua insistência e por fim como se foi embora. Parece que sabia que eu era um colo temporário. E isso apaixonou -me. Ficou para sempre o meu gato…
Essa coisa indefenível Como as coisas Que se chamam coisas. Essa impressão Que fica no ar Mesmo quando já não se nota O teu passar. Essa coisa que me traz preocupado Com as simples tarefas Do universo. Essa coisa que deixa um perfume Em prosa, Ou em verso. Essa coisa a que não quero chamar Amor E que rodeio com perífrases Do mesmo tipo. Esse longo amar Na cabana do Tofo, Ou um beijo trocado No Dhow ao chegar. Passou continentes E olhou-te de surpresa Após o AVC. Essa coisa que ainda Ontem fizemos, Sem vergonha nem pudor. Essa coisa, Assim pura, Chama-se Amor.
Um ano. Um incrível ano. Sabes, estou agora a escrever sobre o teu Pai. É uma coisa que faço. Escrever. Assim como tu te entreténs com os brinquedos, eu escrevo. Hoje apetece-me dizer que é o dia mais fantástico de sempre. Porque tu fazes anos. É assim como se rebentassem todos os fogos de artifício do mundo no meu coração. A tua música, como um xá-xá-xá perfeito, inunda o meu cérebro. Quando cresceres, hás-de aprender que não sou muito normal, mas amo-te acima de todas as coisas. Tu agora és tão pequenino, que tudo te parece grande, os manos, James e Julia, parecem-te domar o mundo, que em breve será teu. Sabes, o avô não tem medo de morrer, mas tenho pena de não continuar a vida ao pé de vós. Espero ter tempo para que me conheças, para que faças, tu, os juízos de valor. Até já!
A escrita não pode ser fotográfica. E realmente a vida não tem relação nenhuma com a escrita. Esta é o que envolve o que se vive, um véu que paira, que revela ou esconde, aparentemente inútil, nitidamente necessário.
Nademos.
E não deixemos de viver por causa da escrita. E não deixemos de escrever por causa da vida. Mesmo nos dias em que a escrita é a nossa única namorada.
Há uns tempos cheguei -me ao pé uma colega da Direção e disse, que quando houvesse tempo haveriam de pensar nos símbolos da escola e pô-los a adejar ao vento. A Bandeira Nacional e a da Escola.
Sei-lá, sentia-me mais aconchegado…
Hoje, com o brilho no olhar veio dizer-me, Já reparaste? Olha ali. E lá estava ela ao vento…
Um vento Uma ventania E já ninguém Sabe o que é Seu. Exceto o medo.
——
Quatro painéis fotovoltaicos Aqui, onde estavam as minhas flores. Algumas telhas que me faltam, Tenho sorte, foram só quatrocentas e cinco, O vizinho, além, tem mais de duas mil e quinhentas, Que fugiram para não sei onde. E outro veio à procura delas, Mas, às tantas, estão todas misturadas, A maioria partidas. Foi a dança das telhas, Fugiram e foram dançar.
——
Os políticos surpreendidos Levaram umas águas Depois fizeram uma reunião, E mais outra. Afinal eram mil milhões, Sem contar com O que cada mão revela. Políticos, chegam tarde, E enganados, E eu, aqui, sem luz.
——
Uma chaminé caiu-me E luz E água E as comunicações foram. Faz hoje oito dias. Oito dias. Uma semana. Sem luz, Sem água, Sem comunicações. Inventámos… Ao sexto dia Um rádio-transistor. Reparamos, então, O quão atrasados estão Os políticos. Os presidentes de câmara estão sós. Os Bombeiros, A GNR, A PSP, A mão de obra vadia, Esses chegaram a tempo. Vítimas também… E nós aqui, No meio do século XXI, Nem um telefonema, Nem um banho, Nem uma lâmpada.
——
Oiço o rádio-transistor. Uma melodia gasta Traz-me memórias.
——
A minha casa? Onde está a minha casa? Ninguém sabia responder-lhe Porque a resposta Já ele sabia. Costumava estar ali.
——
Primeiro, era um Velhote com a Mania que conhecia Geradores. Depois foram nove, Depois deixei de contar. Depois caíram Dos telhados Como se andassem Às cerejeiras. E morreram Como se andassem À fruta Alegres Com um traço A alargar-lhes o desespero. Morreram. Não estavam à espera.
——
Uma luta de gigantes Aconteceu aqui: Os Hércules, os Martes, Fizeram das nossas vidas O seu campo de brincar. Um poste de luz, Que estava aqui, Viu-se lá longe De pernas para o ar. O carro que estava aqui, Agora foi preciso caminhar Para o encontrar. E aquela casa Que veio para o meio Da estrada, E o cabo de longa tensão, Ali pendurado, Jaze no chão. Como se crianças traquinas Brincassem com eles, Como se tivessem formas De brincar. Um leão, uma girafa, E um Hércules com pouca força E isto assim Vezes sem conta, Vezes mais do que eu Pudesse contar.
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E veio a manhã. Só desgraça. Só dor. Um mar imenso De dor.
——
Os políticos demoraram mais. Primeiro não souberam. Há dificuldades: Não era isso Que a imensidão Que era preciso Fazer Exigia.
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Era um ministério De coisas. Famílias desalojadas, Pessoas afogadas, Muitos foram os mortos Após a tempestade. Vítimas de geradores A funcionar em casa Por medo de assaltos. Vítimas de telhados assassinos Que cospem quem vai lá acima. Vítimas de cabos soltos. Vítimas. Da boa vontade. Do medo. Primeira, três meses. Segunda, seis meses. Por fim, um ano. Um ano. E as árvores todas Que falta levantar.
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Foi esse tempo De contar mortos.
——
Chegou o tempo De contar os estragos. Bem contados E os milhões Multiplicaram-se. E havia gente sem luz Sem água Sem comunicações Sem casa.
——
Por fim Só muito por fim Se ouviu a expressão Reerguer Leiria.
——
E agora Vivemos assim Uns sem luz Outros sem água Outros sem comunicações Outros sem casa Outros sem ter onde trabalhar E Mundo lá fora Continua. E nós também Continuamos. Até à próxima Kristin.
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